quarta-feira, 1 de julho de 2009



Uma música soava ao longe, flautas e batuques, e melodiosos violinos, porém sem voz alguma. Mesmo longínqua parecia-me contagiosa. Mesmo longínqua era forte e poderosa. Via enfrente aos meus olhos seres noturnos rodopiarem ao seu ritmo. E em minha mente via passos rápidos, ágeis, porém de extrema gracilidade. E quem os dançava eram belos e, poder-se-ia dizer, a própria encarnação da música. Conduziam seus corpos pela música, ou a música pelos seus corpos, não conseguia decidir-me. Seus olhos permaneciam fechados, e parecia-me que do ar não necessitavam. Pois a música, e apenas ela, os guiava, não suas visões. Respiravam-na e não ao ar. E quando os violinos enchiam-se de fúria eles rodopiavam acelerados, firme e precisamente. E quando estes voltavam à sua melodia calma, aqueles seres dançantes iam mais longe e parecia voar, tal era sua leveza. Pois eu de fato poderia ter a presunção de julgá-los alados.

Àquele som continuei pelo caminho, no entanto não mais andava. Meus sentidos só à música percebiam. E meu corpo somente à ela obedecia. E como em magia juntei-me ao seres de minha mente, a dançar pela noite, ao som das flautas, batuques e violinos. E dançando ouvia contos, de imortais que à música passaram suas histórias de vida eterna. Histórias de um mundo que definhava aos poucos, e do qual não se tinha escapatória. Contos tristes eram sussurrados ao acelerar dos tons dos violinos, que em sua velocidade choravam o pesar de quem outrora os tocara para consolo de suas mágoas.

Então naquele encanto escuro uma voz soou macia e doce. Mais bela nunca havia ouvido, e seu som hipnotizou-me. Suas palavras na língua antiga de repente eram compreensivas. Falava daqueles que foram, mas não mais são. E daqueles que nunca foram. E os feitos do mundo. No entanto mais falava da música, e dos que a dançaram, e ainda dançariam. E nela eu entraria, mais uma a dançar. Pois meu corpo mente e alma agora à música pertencia. E meu espírito assim mesmo queria, pois não haverá nobreza maior do que dança.


TATIANA KASSICK

Nenhum comentário: